PROMEP · UEG · Cora Coralina

coração, coreto, memória.
Memorial Descritivo
Registro do museu virtual Coremória (2022), produto de Mestrado Profissional.
↓Folha de rosto
Ficha Técnica
- Produto
- COREMÓRIA, acervo virtual de natureza repositória e colaborativa.
- Autor
- Victor Henrique Fernandes e Oliveira.
- Programa
- Mestrado Profissional, Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais, Memória e Patrimônio (PROMEP), Universidade Estadual de Goiás (UEG), Campus Cora Coralina.
- Orientadora
- Profa. Dra. Luana Nunes Martins de Lima.
- Linha de pesquisa
- Cultura, Preservação e Identidades.
- Relatório vinculado
- “De Capela a Coreto: direito à memória negra e reapropriação na Praça Coronel Chico de Sá, Pirenópolis (GO)”.
- Palavras-chave
- Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos; memória; patrimônio negro; Pirenópolis; Praça do Coreto.
- Ano do produto
- 2022. Defesa da dissertação: 2022. Contato original: coremoria@gmail.com.
- Nota de registro
- O Coremória foi um museu virtual hospedado em coremoria.com.br. O acervo foi perdido quando o sistema em que havia sido desenvolvido o apagou, retirando o site do ar. Após a queda do site, foi elaborada uma cartilha informativa, com linguagem simplificada, a partir da pesquisa de mestrado, também divulgada por QR code, em Pirenópolis. Este memorial preserva sua proposta, sua arquitetura e seu acervo.
Apresentação
O que foi o Coremória?
O Coremória foi um acervo virtual repositório e colaborativo, voltado ao armazenamento de dados históricos, fotografias e memórias ligadas à Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, às Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e de São Benedito, e aos novos usos e significados da Praça Coronel Chico de Sá (Praça do Coreto), em Pirenópolis - Goiás.
Partia da ideia de que memórias e manifestações culturais ligadas a um lugar podem ser consideradas sem hierarquização, respeitando as formas de ocupação de diferentes grupos em um mesmo espaço modificado, sem desconsiderar as manifestações precedentes vinculadas à capela demolida e às irmandades negras. Foi também espaço de mapeamento do patrimônio cultural afro-brasileiro na cidade.
A pesquisa que lhe deu origem partiu de três eventos norteadores:
Desses eventos, indagava se a Praça do Coreto poderia ser vista como bem cultural que auxilia na percepção da contribuição negra para a construção identitária da cidade, e como território problematizador das narrativas patrimoniais que, influenciadas pela colonialidade do poder, excluíram historicamente o patrimônio negro das seleções institucionais.
A síntese conceitual está no nome
coração·coreto·memória
Abertura
O vídeo de abertura
Ao entrar no Coremória, o visitante era recebido por um vídeo de abertura, que dava as boas-vindas ao acervo e anunciava sua proposta de um lugar de memória no ciberespaço.
A praça é só uma praça?
O coreto é só um coreto?
O presente sempre antecede o futuro?
E o passado? O que causa no presente?
O que se percebe é só o que se vê?
O que se vê é só o que faz sentido?
O sentido que dou faz sentido pra você?
E o sentido do outro: você consegue ver?
Fotografia de fundo: acervo do autor, 2021.
O produto
Um lugar de memória no ciberespaço
O Coremória foi idealizado como um museu virtual de acesso ilimitado e irrestrito, de natureza contínua, repositória e colaborativa, reunindo registros escritos, fotográficos e audiovisuais em um acervo digital aberto à consulta e à contribuição da comunidade.
Sua premissa era a de que a ausência material de um bem cultural não lhe retira o estatuto de lugar de memória. Ainda que demolida, a Capela persiste nas dimensões material, funcional e simbólica de que fala Pierre Nora: remetia a um tempo, gerava práticas e condensava sentidos (Nora, 1993).
O museu virtual ofereceu a esse lugar de memória uma nova morada no ciberespaço, livre dos limites do espaço físico e da chancela institucional. A natureza digital dos registros não os desqualifica como documentos: qualquer objeto que guarda registro de informação e representa uma pessoa, um fato ou uma cultura é, nesse sentido, documento (Padilha, 2014).
O nome
A síntese conceitual está no nome, fusão de três palavras que correspondem às camadas do lugar:
O produto · identidade
A identidade visual
A marca funde a silhueta da Capela, ao fundo e em cinza, em seu primeiro estilo arquitetônico de duas torres, evocando o passado, e a do Coreto, em primeiro plano, formando na composição a letra M, de memória. As linhas de fundo, em cores distintas, representam o movimento, os usos e as reapropriações que se dissipam pela cidade, a pluralidade e a assincronia das memórias da praça. A identidade foi desenvolvida pelo autor em conjunto com o arquiteto Heiler Araújo Konrad.
A construção da marca seguiu quatro etapas, partindo das três palavras que nomeiam o acervo até a composição final.
Etapa I · o coração

Etapa II · o coreto

Etapa III · a memória

Etapa IV · o movimento

O produto · navegação
As seções do acervo
O Coremória organizava-se em frentes que orientavam a navegação pelo acervo.
Divulgação por QR code
A divulgação inicial do museu virtual deu-se, sobretudo, por meio de QR codes fixados na própria Praça do Coreto e em outros pontos do município, estratégia que aproximava o acervo digital do território a que se referia e convidava moradores e visitantes a acessá-lo no exato lugar de memória que ele documentava.
Após o site sair do ar, foi elaborado, a partir da pesquisa de mestrado, um material informativo que preserva parte desse conteúdo, também divulgado por meio de QR code no município.
O produto · aplicações
Coremoreando
Por ser um acervo vivo, o Coremória previa que sua organização se transformasse à medida que novos usos surgissem na praça e novas colaborações chegassem. Junto ao acervo, o produto propunha três caminhos de uso, formais ou informais, oferecidos como convite, e não como regra: o acesso ilimitado permitia adaptá-los livremente.
Crianças e adolescentes
A roda que aprende
Dinâmica em grupo, na própria praça, em diálogo com o ensino obrigatório de História e Cultura Afro-Brasileira (2003).
- 01Observar e anotar o que se percebe do lugar.
- 02Reunir-se no interior do coreto e partilhar percepções.
- 03Conhecer o contexto histórico: escravidão, igreja, irmandades.
- 04Imaginar e desenhar a Capela demolida.
- 05Acessar o Coremória em conjunto.
Direito e patrimônio
A lei diante do lugar
Visita de campo ao Centro Histórico tombado, para estudantes de Direito e de cursos que tratam da legislação do patrimônio.
- 01Percorrer o conjunto tombado, confrontando o instituto jurídico com a realidade.
- 02Encerrar o percurso na Praça do Coreto.
- 03Discutir o que o tombamento representa e o direito à memória negra.
Visitantes e turistas
Para além da Feirinha
Dinâmica informal, iniciável em qualquer ambiente, para quem já esteve na praça ao menos uma vez.
- 01Partir das primeiras impressões do lugar.
- 02Conhecer sua história e a presença negra que o constitui.
- 03Ampliar a percepção sobre um espaço muitas vezes reduzido à “Feirinha”.
I
A Capela
No Coremória, esta seção era dedicada à Igreja dos Pretos. Reunia a história da edificação e de seus estilos arquitetônicos até a demolição, a vida das irmandades de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, o Reinado nascido delas, o memorial dos irmãos inscritos e as reminiscências do templo que ainda resistem pela cidade.
A Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos foi erguida pelas mãos das irmandades negras quando o povoado ainda era o Arraial de Meia Ponte, então chamado Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte. Ao longo de quase dois séculos, o templo acumulou camadas de estilo arquitetônico, até ser demolido por volta de 1944, quando desapareceu da paisagem o principal marco material da devoção negra na cidade (Jayme e Jayme, 2002).
A Capela
As três versões da Capela
Ao longo de quase dois séculos, o templo mudou de feição três vezes, das duas torres iniciais à silhueta neogótica anterior à demolição.
Jayme, Famílias Pirenopolinas, vol. V, 1973
Grupo de Fotos Antigas de Pirenópolis (Facebook)
Grupo de Fotos Antigas de Pirenópolis (Facebook)
As três versões foram reconstituídas virtualmente em 3D pelo arquiteto Heiler Araújo Konrad (2022), em vídeos rotativos que permitiam observar o templo desaparecido em diferentes ângulos, subproduto da pesquisa.
A Capela
As irmandades negras
As irmandades religiosas estiveram presentes na Europa Ocidental desde os séculos XII e XIII, e as associações brasileiras foram concebidas nos moldes da tradição medieval, com finalidades religiosas, caritativas, sociais e raciais (Russell-Wood, 2005). Nas Minas do século XVIII, o surgimento das confrarias acompanhava a instalação das primeiras freguesias: fundava-se primeiro a irmandade do Santíssimo, que ocupava o altar-mor, e em seguida as irmandades dos negros, como as de Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia ou São Benedito, relegadas aos altares laterais. Foi justamente a exclusão praticada pelos brancos, que não permitiam a entrada de pretos em suas associações, que motivou os negros a organizarem as suas próprias (Salles, 1963).
Mais do que confrarias devocionais, essas associações foram instâncias de organização, amparo e convivência: suas ações abrangiam cultos e festividades, a proteção de seus membros, a construção de obras religiosas e profanas e as obras de caridade, o que as popularizou (Scarano, 1978). O maior critério de identidade dessas irmandades foi a cor da pele em conjunto com a nacionalidade de seus integrantes, havendo confrarias de brancos, de pardos e de pretos, estas subdivididas entre crioulos e africanos e, ainda, pelas “nações” de origem (Reis, 1996). O sonho de cada irmandade de cor era conseguir capela própria, para reunir-se livre da vigilância dos fiscais (Ott, 1968).
Em Pirenópolis, a Capela erguida pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos recebeu depois a Irmandade de São Benedito em um dos altares laterais, e “representou um marco fundamental de identidade por abrigar duas confrarias cujos membros, em sua maioria, eram negros, forros e escravos” (Lôbo, 2006, p. 40). Ainda que formalizadas em momentos distintos, as duas irmandades “atuavam juntas como associações corporativas em que a solidariedade se estabelecia entre os segmentos sociais presentes, regulados pelo critério étnico” (Lôbo, 2006, p. 41): arrecadavam fundos, financiavam os funerais dos irmãos, mantinham o templo e organizavam os festejos do Reinado e do Juizado.
As confrarias foram perdendo força após a abolição (Brandão, 1978); o declínio motivou reorganizações, a junção das duas irmandades em 1961 e sua extinção em 1991 (Lôbo, 2006).

A Capela · acervo
Memorial dos irmãos
O Coremória mantinha um memorial com os nomes de alguns dos membros inscritos na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, transcritos do Livro de Registro dos Irmãos, iniciado em 24 de junho de 1812 e hoje guardado no acervo da Matriz. Já deteriorado, o livro guarda cerca de 321 inscrições; reproduzem-se abaixo os assentos legíveis, de 1817 a 1943.
O acesso ao documento deu-se por registros fotográficos de Paulo Henrique Ferreira Ceripes (2014). O último irmão inscrito na condição de escravo foi Benedicto Domingues de Amorim, em 30 de maio de 1886, dois anos antes da abolição.
42 registros
- 17/05/1817Albina (escrava)
- 30/04/1818Caetano (escravo)
- 30/04/1818Joze (escravo)
- 12/06/1818Manoel (escravo)
- 28/03/1821Anna Maria (escrava)
- 01/06/1823Izabel de Farias
- 11/06/1823Clara (escrava)
- 14/05/1824Maria Joana Pereira
- 30/05/1855Antônio Pereira da Silva (escravo)
- 30/05/1855José Ygnácio Ribeiro
- 30/05/1855Francisco Coelho da Silva
- 31/05/1855José Cateano da Conceição
- 12/05/1856Lourenço Lopes da Silva
- 30/05/1860Maria dos Anjos
- 30/05/1886Benedicto Domingues de Amorim
- 14/06/1886Maria Rodrigues da Abbadia
- 04/07/1886Bento Alves de Oliveira
- 01/06/1887Hypolito Pereira da Silva
- 01/06/1887Manoel de Fontes Isabel
- 07/06/1892Henrique Luiz Brandão
- 22/05/1893Jorge da Costa Amorim
- 07/06/1897Joaquim Pereira de Alexandria
- 17/09/1898João Ribeiro da Penha
- 10/10/1906Anna Maria de Jesus
- 10/10/1906Joaquim Tocantins
- 07/10/1907José Martins Cabral
- 07/10/1907Chrispiniano da Costa
- 05/10/1908Joaquim Augusto Pereira Veiga
- 05/10/1908Benedito Ramos
- 04/10/1909Celso José do Nascimento
- 03/10/1910João Antônio da Luz
- 03/10/1910Eugênio Gomes
- 05/06/1911Virgilio Rodrigues Vidal
- 25/05/1912Maria da Abbadia Prazeres
- 12/05/1913Benedito Marcellino Gomes
- 12/05/1913Francisco Gomes de Oliveira
- 12/05/1913Argemiro de Assunção Almeida
- 01/06/1914José D’abbadia Siqueira
- 01/06/1914Silvino Alves dos Santos
- 16/05/1921Feliciano Pereira Nunes
- 27/05/1942José Saturino Peixoto
- 13/06/1943José Maria de Oliveira
Nenhum nome encontrado.
Fonte: Livro de Registro dos Irmãos de Nossa Senhora do Rosário · registros de Paulo Henrique Ferreira Ceripes, 2014.
A Capela
Reinado e Juizado
Da vida das irmandades nasceram o Reinado de Nossa Senhora do Rosário e o Juizado de São Benedito, conhecidos pelos pirenopolinos apenas como Reinado. Sobre sua origem, uma versão vincula os festejos aos primórdios da ocupação de Meia Ponte, no tempo dos primeiros escravos; outra sustenta que o Reinado nasceu do desejo dos negros cativos de reproduzirem, à sua maneira e para seus santos, uma festa semelhante à do Divino (Brandão, 1978). As versões não divergem no essencial: o Reinado é manifestação religiosa ligada aos negros.
Hoje o Reinado encontra-se incorporado à Festa do Divino, junção que se explica ou pela participação das irmandades nos festejos do Divino desde o fim do século XIX, ou pela romanização da Igreja e o enfraquecimento das confrarias a partir da década de 1920 (Silva, 2001 apud Lôbo, 2006). Brandão (1978) via a Festa do Divino como celebração da elite e o Reinado como festejo dos brancos pobres, que substituíram os negros após a evasão decorrente da abolição, e previa que a festa vivia seus últimos anos. Contrariando essa percepção, o Reinado resiste até os dias atuais, mas passou por dinâmico processo de transformação, culminando no desaparecimento do festejo original, hoje revitalizado e transcendente à mera religiosidade (Lôbo, 2006).
A permanência do reconhecimento coletivo do Reinado como “festa dos pretos”, “mesmo sendo clara a ausência de negros” (Lôbo, 2006, p. 65), parece operar como espécie de mito fundador que dá sentido à continuidade do festejo e lhe atribui status de tradição. Nessa dinâmica paradoxal, a presença do negro é ora invocada, para sustentar a narrativa de tradicionalidade, ora afastada: a distinção de ritos dentro da programação do Divino produz uma espécie de segregação festiva, e a própria não participação de parte dos pirenopolinos no Reinado, por ser “festa de preto”, externa a continuidade do padrão colonial. Como registra Lôbo (2006, p. 132), “a não-participação no Reinado de Pirenópolis tem ocultado mormente o preconceito alimentado durante séculos de dividir com o negro ou pobre um mesmo espaço [...]”.
Herdeiro direto das irmandades, o Reinado é a ancestralidade do lugar; no entanto, em seu trajeto atual, não passa pela Praça do Coreto nem a reocupa, ausência que o próprio Coremória registrava como uma das chaves de leitura da praça.

Fonte: Acervo de Tereza Caroline Lôbo, 2009
A Capela
Permanências visíveis
Com a demolição, objetos, imagens, móveis e pertences da Igreja dos Pretos foram realocados para outras igrejas de Pirenópolis; de acordo com a tradição oral, muitas peças foram furtadas nesse processo. As reminiscências que resistiram diluíram-se no itinerário religioso, e turístico, do Centro Histórico.
Essas permanências guardam também usos vivos. O sino “Rozario” é tocado apenas na saída da Procissão do Senhor dos Passos e no retorno da imagem, na Segunda-Feira Santa. O rito é herdeiro de uma dinâmica antiga: a Igreja dos Pretos não era isolada da vida religiosa da cidade, e era em seu interior que a imagem do Senhor dos Passos pernoitava no Sábado de Passos, antes de seguir em procissão para a Matriz no Domingo de Ramos.
Imagem de Nossa Senhora do Rosário
Museu de Arte Sacra · Igreja do Carmo
A imagem que ocupava o altar-mor do templo, pertencente à extinta irmandade, hoje no acervo do museu.
Altares laterais, sacrário de 1754, baú/cofre e sino “Benedito”
Museu de Arte Sacra · Igreja do Carmo
Os altares laterais da igreja demolida, um sacrário talhado em madeira datado de 1754, o baú/cofre onde a irmandade guardava seus fundos e documentos e um sino marcado com a escrita “Benedito”.
Altar-mor original, São Benedito e Livro dos Irmãos
Matriz de Nossa Senhora do Rosário
O altar dos pretos, instalado como altar-mor da Matriz após o incêndio de 2002; a imagem de São Benedito; e o Livro de Registro dos Irmãos, iniciado em 1812.
Sino “Rozario”
Igreja do Senhor do Bonfim
Um dos sinos laterais do antigo templo, instalado em uma das torres do Bonfim e tocado apenas na Procissão do Senhor dos Passos.
Essas reminiscências foram reunidas pelo Coremória no vídeo expositivo “permanências”, subproduto da pesquisa que buscava democratizar o acesso às peças a quem não pode visitar o Museu de Arte Sacra pessoalmente.
A Capela
O altar na Matriz
O templo demolido reunia três altares. No altar-mor, a imagem de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos ocupava o centro da composição, ladeada, nos nichos laterais, por São Rafael e São Bento (Jayme e Jayme, 2002). Após a demolição, esse conjunto, descrito como “um encanto de altar, obra de extasiante beleza” (Jayme e Jayme, 2002, p. 47), esteve prestes a deixar Pirenópolis. Vendido a um antiquário e já acondicionado no caminhão que o transportaria para São Paulo, teve sua retirada impedida pelo prefeito. Desmontado, o altar permaneceu na cidade, recolhido a uma das sacristias da Igreja do Carmo (Nóbrega, 1984).
Em 5 de setembro de 2002, a Matriz de Nossa Senhora do Rosário sofreu um incêndio e ficou sem seu altar principal. No restauro, sob supervisão do IPHAN, o altar dos pretos, guardado desde a venda frustrada, passou a ser o altar-mor do templo que um dia restringiu a entrada dos negros e pobres devotos. A presença do altar na Matriz carrega forte carga simbólica para os moradores, sobretudo os mais velhos; ao abordar o assunto, não é incomum escutar que se tratou de uma “ironia do destino”.

II
O Coreto
Esta seção tratava da praça que sucedeu o templo. Apresentava suas muitas denominações, a história do coronel que lhe dá nome oficial, as permanências invisíveis guardadas sob o solo e os usos, significados e reapropriações que hoje devolvem vida ao lugar.
Onde se erguia a capela, abre-se hoje a praça, edificada na década de 1980. O lugar acumulou nomes ao longo do tempo, e cada denominação revela quem a pronuncia e que laço mantém com o espaço: a denominação se modifica em razão da ligação da pessoa com o lugar.
Largo do Rosário Velho · Largo da Igreja de N. S. do Rosário · Praça do Rosário
Nomes que remetem à existência da Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, mesmo com o lugar modificado.
Praça da Feirinha
Em razão da Feira das Artes, que ocupa o espaço aos finais de semana.
Larguinho
Usado por pirenopolinos que, crianças ou adolescentes, jogavam bola no campinho que antes ocupava o lugar.
Praça das Artes
Da Associação dos Artesãos da Praça das Artes de Pirenópolis (APAP), que reúne os feirantes.
Praça Coronel Chico de Sá
Homenagem ao coronel Francisco José de Sá, nascido escravo e frequentador da Capela dos Pretos.

O Coreto
O Larguinho
Entre a demolição da Capela e a posterior configuração da praça, o espaço passou por diferentes formas de ocupação e apropriação. Demolida por volta de 1944, a edificação deixou escombros que permaneceram na paisagem por algum tempo, provavelmente até a década de 1950, além de persistirem na memória de alguns moradores.

Mais tarde, possivelmente entre 1965 e 1970, a área passou a abrigar um campo de futebol improvisado por crianças e adolescentes, que denominaram o local de “Larguinho”.
Mesmo após a demolição do templo e antes da configuração da praça, o espaço permaneceu vinculado às experiências e às memórias dos moradores. A denominação “Larguinho”, ainda hoje utilizada por aqueles que recordam esse período, evidencia que as sucessivas formas de ocupação do lugar deixaram marcas duradouras e continuam a influenciar o modo como os pirenopolinos o nomeiam e o percebem.
O Coreto · a praça hoje

Onde o templo abrigava os irmãos, a praça hoje reúne a cidade: o presente construído sobre a memória.
O coreto na Praça Coronel Chico de Sá, Pirenópolis · acervo do autor, 2021
O Coreto
Chico de Sá e o nome da praça
Nascido escravizado em 29 de janeiro de 1861, Francisco José de Sá, descendente da chamada “Família Guerra”, percorreu uma trajetória singular na sociedade pirenopolina, tornando-se Coronel e um dos homens mais ricos da cidade. Neto de Maria Inácia Guerra, conhecida como Fulô Guerra, e filho de Joana Inácia Guerra, libertada em 1859, recebeu a alforria por ocasião de seu batismo, em 21 de abril de 1861. Pela liberdade do filho, seu pai, José Joaquim de Sá, pagou 32 oitavas de ouro, equivalentes a aproximadamente 128 gramas. Depois disso, levou-o para casa e se encarregou de sua criação (Jayme, 1973).

Jayme, Pirenópolis, Humorismo e Folclore, 1983
Sem estudos formais, sabia ler e escrever, e iniciou sua ascensão com poucos recursos, “adquiridos honradamente”, tornando-se dono de casa comercial e, mais tarde, senhor de amplo domínio sobre o eleitorado rural de Pirenópolis. Foi Imperador da Festa do Divino por três vezes, em 1917, 1933 e 1937, sendo a primeira “a maior de que se tem notícia”, custeada por sua beneficência (Jayme, 1983). Na ocasião de sua morte, em 7 de novembro de 1938, era o maior proprietário urbano e rural da região, e residia em frente à Igreja dos Pretos, em casa construída a seu mando em 1905, que ainda pertence à família e hoje funciona como pousada.
Uma reflexão sobre o nome institucional
Não foi possível localizar a justificativa que acompanhou a Lei Municipal nº 561/06, responsável por atribuir oficialmente à praça o nome do Coronel. À luz das observações de campo, a proximidade de sua residência, situada diante do antigo templo, parece ter constituído referência mais imediata para a homenagem do que uma eventual vinculação do ex-escravizado às irmandades ou à capela demolida. Entre os moradores, contudo, a denominação oficial pouco circula. Embora o Coronel permaneça presente na memória e no imaginário pirenopolino, sua figura não costuma ser associada à Irmandade nem à Capela dos Pretos. Quando evocada, sua trajetória aparece sobretudo ligada à fortuna que reuniu, aos imóveis que possuiu e à participação como Imperador do Divino.
O Coreto
Permanências invisíveis
Sob o piso da praça, a história permanece inscrita em camadas. Como os sepultamentos ocorriam, em grande parte, no interior dos templos, as irmandades responsáveis por esses espaços exerciam papel central na garantia de uma sepultura digna a seus membros e a outros interessados (Boschi, 1986). A Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos recebeu autorização episcopal para realizar sepultamentos ainda em 1758. A provisão estabelecia uma distribuição hierarquizada das sepulturas: ao Rei, à Rainha, aos Juízes e ao capelão daquele ano destinavam-se as covas situadas “do Arco para sima”; aos que já haviam exercido essas funções, o espaço compreendido entre o arco e as grades; aos demais irmãos, a área abaixo das grades. Aqueles que não integravam a irmandade, mas desejavam ser sepultados na Capela, deveriam efetuar pagamento à sua fábrica (Jayme, 1971).
O mais antigo registro de óbito localizado remonta a 7 de junho de 1764. Nele figura Marta Joaquina de São José, mulher preta, liberta e pertencente à nação mina, sepultada no primeiro andar das covas da capela-mor (Jayme e Jayme, 2002). Dois anos mais tarde, Gaspar, homem preto forro, igualmente identificado como mina, recebeu sepultura junto ao altar-mor. A posição privilegiada da cova sugere uma trajetória que, para além da conquista da liberdade, alcançou algum grau de mobilidade econômica e reconhecimento social (Loiola, 2009).


No ano 2000, os sepultamentos voltaram à superfície. Durante uma intervenção subterrânea, a descoberta de ossadas humanas levou à realização de um resgate arqueológico de emergência, conduzido pelo IPHAN em parceria com o Núcleo de Arqueologia da UEG. As escavações revelaram sepultamentos preservados e fragmentos cerâmicos de influência africana. Durante os trabalhos, remanescentes ósseos foram dispostos sobre um dos bancos da praça — cena registrada acima —, compondo uma imagem de rara intensidade: sobre o mobiliário cotidiano do espaço público, tornava-se visível a memória até então resguardada sob o seu piso (IPHAN, 2002).
O Coreto
O que a escavação também revelou
Para além dos sepultamentos, o acompanhamento arqueológico das obras de instalação da fiação subterrânea, realizado em 2002, trouxe à luz um conjunto de 15.369 peças, entre fragmentos de cerâmica, vidro, louça, metal, osso e material lítico. Atualmente sob a guarda do Núcleo de Arqueologia da UEG, na Cidade de Goiás, o acervo encontra-se disponível à consulta de pesquisadores. Os registros das atividades laboratoriais desenvolvidas pelo NARQ/UEG, em 2003, revelam objetos capazes de estabelecer conexões particularmente significativas com a memória negra do lugar, dimensão que, contudo, não foi aprofundada no relatório técnico.
A pederneira e o cachimbo
Os vestígios arqueológicos associados à presença negra estendem-se para além do antigo Largo do Rosário. Na Praça Emanoel Jaime Lopes, em outro ponto do centro histórico, foi identificado o único artefato lítico de toda a escavação: uma pederneira de sílex lascado, encontrada entre 73 e 110 centímetros de profundidade, em meio a uma expressiva concentração de cerâmica incisa com marcas de fuligem. Seus sinais de uso sugerem que a peça servia para acender cachimbos de cerâmica, evocando gestos cotidianos de homens e mulheres negros na antiga Meia Ponte. Na Rua Santa Cruz, também situada nas proximidades, foram exumados dois cachimbos: um modelado à mão e ornamentado com incisões; o outro, produzido em molde.


Uma cerâmica de influência africana singular
Com 5.062 fragmentos, a cerâmica de produção local constitui a categoria mais numerosa do acervo. As peças foram elaboradas por meio de técnicas tradicionais, como o polimento com seixo, a escovação com sabugo de milho e a modelagem por roletes. O relatório chama atenção para a singularidade de sua decoração incisa, marcada por influências africanas e distinta até mesmo daquela identificada em outros sítios afrodescendentes do mesmo período. Diante da relevância dos achados, o documento recomendou o aprofundamento das escavações no perímetro de especial interesse da herança afro-brasileira, delimitado pela Fundação Cultural Palmares no interior da área tombada em 1989. Passadas décadas, a recomendação permanece sem desdobramento.
O Coreto
Usos, significados e reapropriações
Esvaziado o templo, o coreto tornou-se palco de novos usos, que o acervo reunia em três frentes. São manifestações que devolvem ao espaço sua função de encontro e fazem da praça, ao mesmo tempo, território de devoção, de ancestralidade e de sustento.
A Missa do Coreto
Nascida do clamor de moradores que guardam o lugar como sagrado, é celebrada mensalmente, na segunda segunda-feira de cada mês, sob a Paróquia de Nossa Senhora do Rosário. Os vizinhos lavam o chão e levam imagens de Nossa Senhora do Rosário para um altar improvisado; antes da pandemia, ali também se rezava o terço. A devoção reconduz ao lugar a religiosidade herdeira, ainda que transformada, daquela que ali se praticava.
O Bloco Aláfia
De “àláfíà”, palavra iorubá para prosperidade e saúde, o bloco, iniciado por Jéssica Botega e pelo contramestre Lagartixa, é regido por Xangô: antes de descer de sua concentração, na Igreja do Bonfim, seus integrantes fazem rituais de proteção em reverência ao orixá. No carnaval, passa pela praça para reverenciar os ancestrais, com alas de porta-bandeira, berimbaus e capoeiras, baianas, namoradeiras e turbantes.
A Feira das Artes
Com cerca de vinte anos de existência, a “feirinha” é administrada pela Associação dos Artesãos da Praça das Artes de Pirenópolis (APAP) e reúne cerca de cinquenta barracas, do artesanato à alimentação. Para muitos turistas e moradores mais jovens, é a primeira lembrança da praça e o sustento de muitas famílias: o uso que exterioriza a transformação do lugar.
“Passar no coreto dá um sentido de retomada, de reconquista pra nós [...] Esse espaço já foi algo, esse espaço é algo e esse espaço será algo [...] o formato do coreto, no circular, é olho no olho, você não fica na nuca do outro. Isso é muito importante.”
Adelina Benedita Alves Santiago, integrante do Bloco Aláfia e expositora na Feira das Artes · 1º de dezembro de 2021
Fundamentação
O jogo de memórias
A pesquisa que deu origem ao Coremória propôs olhar a Praça do Coreto como bem cultural polissêmico, lugar que abriga, ao mesmo tempo, múltiplas percepções, significados e formas de reapropriação. A esse convívio de memórias distintas sobre um mesmo espaço a investigação chamou jogo de memórias, um campo em que as lembranças dos diferentes grupos, internos e externos, podem ser consideradas sem hierarquização. Para descrevê-lo, a pesquisa percorreu quatro lentes, quatro modos de perceber e reapropriar o mesmo lugar.
Lentes tradicionais
A não reapropriação da praça pelo Reinado. Herança direta das irmandades, ele migrou para a Festa do Divino: é a ancestralidade do lugar, mas não ocupa hoje o seu espaço.
Lentes católicas
O olhar que percebe a praça como chão sagrado: a lente de quem clama por celebrações no coreto e vê, em cada gesto devocional, a continuidade de um vínculo que a demolição não desfez.
Lentes ancestrais
O olhar que concebe a praça como território negro: ainda quando vistas como expressão “de fora”, essas presenças operam como visibilidade e reconstrução de uma tradição (Leite, 1991).
Trocando as lentes
As lentes não se excluem: um mesmo sujeito alterna entre elas, e prevalece, a cada vez, a que motiva a apropriação — a devoção, a ancestralidade, o sustento ou a ausência.
Compartilhar essas memórias, diluindo-as pela cidade, é caminho para a consciência da carga simbólica do lugar e para a garantia do direito à memória negra.
Foi essa a motivação do Coremória: devolver à comunidade um espaço de problematização, participação e preservação.
O Coreto
Os usos em imagens
III
A Cidade
Esta seção era o espaço para compartilhar arte, mídia, textos, poesias e outras formas de expressão e resistência ligadas à negritude em Pirenópolis. Reunia uma agenda cultural, retratos de artistas e projetos da cidade e a frente “Para refletir”, com depoimentos sobre o racismo e o apagamento da memória negra.
Para além da praça e da capela, a representatividade negra inscreve-se na cidade como arte, mídia, poesia e resistência. Pirenópolis abriga vozes que mantêm viva a memória afro-brasileira e a projetam adiante.

Marieta de Sousa Amaral
Nascida e criada em Pirenópolis, Marieta de Sousa Amaral é escritora, poetisa e contadora de causos, reconhecida como Mestre Griô e integrante da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música. Autora de “Majestade Sabiá” (2010) e “Naqueles tempos” (2019), concedeu ao acervo uma entrevista, em novembro de 2021, partilhando memórias de sua infância e da cidade.

Imagem em movimento
Gravado em Pirenópolis e baseado nas memórias dos negros escravizados às margens do Rio das Almas, o curta “Rio das Almas e Negras Memórias” (2019), com direção de Taize Inácia e Thaynara Rezende, leva à dança e às manifestações afro-brasileiras a retratação do trauma e das memórias furtadas da escravização.

Negritude, Temos Consciência
Criado em 2018 por Gil Tobias e premiado pela Fundação Cultural Palmares, o “Negritude, Temos Consciência” celebra a cultura negra em datas como o Dia da Consciência Negra (20 de novembro) e o Dia da Mulher Negra (25 de julho), com oficinas de contação de histórias e de Boneca Abayomi, rodas de conversa, exposições de filmes e manifestações artísticas, sustentado sobretudo por voluntários.
A Cidade
Para refletir
Reunidos sob o título “Para refletir”, os depoimentos dão presença às vozes da cidade e atravessam questões como o racismo e o apagamento da memória negra. Mais do que registros, constituem um convite à escuta e ao reconhecimento das experiências que persistem no cotidiano pirenopolino.
“A impressão que tenho é que todas as informações referentes aos negros que viveram na cidade no período colonial se relacionam à escravidão, resumindo esses personagens a figuras pouco importantes na história da cidade. O que claramente é um apagamento cultural [...]”
T. C. O. R · 24 de junho de 2021
“[...] a minha bisavó, na época que ela morava aqui, ela não tinha acesso à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Brancos [...] elas podiam ficar só até embaixo do couro e o coronel ficava do couro pra cima. Depois eles abriram [...] Aí abriu pra todo mundo.”
Maria Aparecida Trindade · 27 de novembro de 2021
“Muito bonita, simples, mas muito bonita. Eu tenho saudade. A torre parece que era de zinco, em cima da torre tinha uma cruz e um galinho em cima [...]”
Pérsio Forzani · 27 de novembro de 2021
“[...] de toda forma ali é um espaço sagrado [...] não deixou de ser um espaço sagrado. [...] Até pelas almas dos escravos que tanto sofreram pra construir essa igreja lá.”
Padre Augusto · 27 de novembro de 2021
“Você sente a vibração, sabe? Quando você chega no Coreto, vai ter batuque, o toque, as músicas [...] a negritude que foi enterrada ali [...] 'lá atrás eu sofri tanto, não podia manifestar' [...] e hoje em dia, olha o que acontece. [...] É muito significativo, sabe?”
G. T. F. G · 29 de novembro de 2021
“Acompanhei o processo do IPHAN de conseguir que o altar original da Igreja dos Pretos fosse restaurado, o que acho muito simbólico e importante, simbolizando um reconhecimento de todo o trabalho negro envolvido na construção da igreja e da cidade [...]”
I. M. R. D · 12 de novembro de 2021
COREMÓRIA (em vertigem)
Curta-metragem com imagens, edição e produção do autor, também subproduto da pesquisa de mestrado. Reúne registros da Praça do Coreto de dia e de noite e trechos das entrevistas com moradores. A distorção de imagens, cores e enquadramentos, somada a uma trilha que mistura percussão africana e sinos de igreja, busca inquietar o espectador e expor a justaposição entre cultura africana e tradição católica. O filme encerra com uma homenagem ao pintor Pérsio Forzani, falecido em 6 de dezembro de 2021, que retratou a Capela em suas obras e concedeu entrevista poucos dias antes de sua morte.
Encerramento
Considerações finais
A edificação da Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, a partir de 1743, transcende a materialidade e a constatação de um bem já demolido. Além de templo erguido na conjuntura colonial, foi cenário das práticas das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e de São Benedito, que, mais do que associações religiosas, operavam como microssistemas de ajuda mútua, organização interna e resistência (Reis, 1996).
A população negra esteve presente em Pirenópolis desde os primeiros anos de sua formação, e sua participação na construção identitária da cidade é incontestável. A demolição da Capela, por volta de 1944, sinaliza um projeto de apagamento que persiste no cenário atual, marcado pela exploração do turismo: paradoxalmente, a presença negra é afastada, literal ou simbolicamente, ao mesmo tempo em que é invocada, seja para amparar uma tradicionalidade, seja para alimentar o imaginário social.
As políticas de preservação do patrimônio brasileiro, pautadas pela primazia do bem material e influenciadas pela colonialidade do poder, contribuíram para a invisibilidade de grupos minoritários (Quijano, 2005; Chuva, 2012). Em Pirenópolis, a Matriz de Nossa Senhora do Rosário, frequentada pelas famílias mais abastadas, foi tombada em 1941, três anos antes de autorizada a demolição da Capela dos Pretos.
A Praça do Coreto pode ser visualizada como bem cultural polissêmico: concentra múltiplas percepções, significados e formas de reapropriação, motivadas por usos passados e presentes. Essas memórias, em contexto de disputa, são passíveis de manipulação e apagamento; no campo que esta pesquisa chamou jogo de memórias, podem ser consideradas, sem hierarquização, para a problematização de eventos como a demolição da Capela e a própria edificação da praça.
Diluir e compartilhar essas memórias pela cidade é caminho para a consciência da carga simbólica do lugar e para a garantia do direito fundamental à memória negra (Dantas, 2008). Foi essa a motivação do Coremória. Com a queda do site, a pesquisa de mestrado, defendida em 2022, deu origem a uma cartilha informativa, igualmente divulgada por QR code, que manteve em circulação o conteúdo do acervo. Hoje, fora do ar, o museu virtual encontra neste memorial sua forma de permanência: o registro de uma proposta que quis ser, ela própria, um lugar de memória.
Para uma leitura mais breve
Consulte o Informativo digital do Coremória, uma versão sintética deste memorial, preparada para circulação por QR code e leitura rápida em Pirenópolis.
Fontes
Referências
Obras citadas neste memorial, conforme o relatório técnico vinculado. A relação bibliográfica completa da pesquisa encontra-se no referido relatório.
Bibliográficas
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